Juventude em Risco: Sexo
O assunto sexo está sempre presente entre as grandes preocupações sobre a vida dos jovens. Em um período de descobertas, a pesquisa perguntou sobre sexo antes do casamento, atividade sexual, Aids e como se protegem.
O sexo antes do casamento
O adolescente sorocabano aprova o sexo antes do casamento. Questionados sobre a aprovação do sexo antes do casamento, apenas 34% dos jovens se posicionaram contrários. A maioria, 53,4%, aprova o “transar antes de casar” e acredita que o sexto não prescinde do casamento.
Dúvidas
Ainda 12,5% dos adolescentes entrevistados não estão seguros acerca de suas convicções e posicionaram-se no meio termo, contudo, sem reprovar.

Comentários*
“Os perigos que envolvem o comportamento sexual nem sempre são percebidos pelo adulto ou pelo adolescente, colocando em risco a integridade física do jovem, como quando ocorre uma gravidez precoce – algumas vezes logo após a primeira menstruação – e a família obriga a menina a casar, acreditando que se ela teve capacidade para o ato sexual, terá para o casamento e a maternidade. Isso não acontece. A formação emocional irá se dar de forma mais lenta e sobre experiências que possibilitam o adolescente se experimentar e se descobrir.
O desenvolvimento integral do adolescente será atrelado aos aspectos físicos e emocionais e ao equilíbrio que deve haver entre eles para que o jovem chegue a um amadurecimento que lhe permita viver e crescer dentro da sociedade.”“A adolescência pressupõe que o jovem se idealiza como aquele que tem total domínio do mundo, seu grupo lhe dá a referência de como deve ser seu comportamento, principalmente o sexual. As intervenções feitas pela família – não importa se são adequadas ou não – são sentidas como invasão de privacidade ‘papo careta’, e via de regra, produzem situações de conflito ou agressão, algumas vezes.”
ANA LAURA SCHLIEMANN DE LUCA
Professora da Faculdade de Medicina de Sorocaba
“Análise feita em cima de dados coletados junto aos adolescentes de Sorocaba cuja faixa gravita entre 13 e 17 anos mostra que grande parte desses jovens não acha o matrimônio necessário para a iniciação sexual, tanto que uma quarta parte deles já está praticando relações sexuais. Isso mostra também que a mudança comportamental de nossos jovens involuiu no que se refere à sexualidade, que ai invés de ser contida passou a ser desenfreada.
As causas prováveis são com toda a certeza os meios incríveis de manifestação sexual explícita que levam os mais jovens à imitação. A cultura de um povo devia ser orientada pelo governo de tal sorte que se construisse a personalidade do jovem com moldes que realmente merecessem imitação. Há muita confusão entre sexo e amor.”EDWARD MALUF
Secretário Municipal da Saúde
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
A atividade sexual na adolescência
Do total de adolescentes, 24,3% admitem que já iniciaram suas vidas sexuais e 75,7% dos adolescentes nunca tiveram uma experiência sexual.

Comentários*
“O adolescente tem a informação adequada, mas a sua sensação de poder e superioridade sobre os problemas cotidianos faz com que ele não se aperceba das consequências que irá sofrer. As mudanças que seu corpo está passando diminuem o controle sobre o mesmo e suas vontades desconhecidas e muitas vezes, pela falta de experimentação, ultrapassam os limites que nem reconhecem como tal.”
ANA LAURA SCHLIEMANN DE LUCA
Professora da Faculdade de Medicina de Sorocaba
“Estudos estatísticos mostram que cerca de 75% dos casos novos da Aids afetam pessoas com menos de 25 anos, atingindo em particular os que estão iniciando sua vida sexual.”
ROSANA MARIA PAIVA DOS ANJOS
Diretora Técnica do Grupo de Vigilância Epidemiológica – ERSA 59
“Pesquisas como estas que vemos no momento nos ajudam a tirar as vendas dos olhos e querendo ou não, tem-se que reconhecer a realidade, independente de nossas crenças, ideologias ou de nossa necessidade de negação. Os dados aqui apresentados nos mostram que as práticas sexuais são aceitas pela maioria dos jovens adolescentes, além do que um segmento expressivo deste grupo afirma já ter tido vivência destas práticas. Estes dados apontam para um perfil de comportamento já imaginado, porém não enfrentado.”
“A Aids, que tem sido o estigma de morte sob o aspecto biológico, obriga-nos a repensar o seu inverso, a vida. É difícil ter a fórmula para equacionar tal problema, porém talvez o fio para começar a desenrolar este novelo seja o reconhecimento do que é natural. Reconhecer que o desejo sexual existe, que as práticas sexuais existem, que a ‘hora certa’ para cada um é distinta, que a pisca da satisfação da curiosidade é natural. Reconhecer que talvez a melhor forma de tratar estas questões seja discuti-las com este segmento internamente no seu mundo, mesmo sem ter respostas precisas parece ser a possibilidade de construir um novo conhecer e uma nova práxis.”
JOSÉ RICARDO PIO MARTINS
Coordenação da Comissão Municipal de Prevenção à AIDS
“A pesquisa revela uma tendência à modernização do conceito do adolescente sorocabano sobre o sexo. O que é positivo, posto que desafia uma mentalidade atrasada ainda em vigor: a de que a sexualidade é um assunto pecaminoso e deve ser escamoteado. Por outro lado, a liberdade torna-se preocupante na medida em que a mesma pesquisa aponta par um baixo nível de informação sobre métodos contraceptivos e, pior, sobre a Aids. Prova de que o tema não pode mais continuar sendo preocupação apenas de abnegados ou entidades específicas. Deve tornar-se disciplina escolar obrigatória, deve ser debatido em comunidades religiosas, clubes recreativos e no âmbito familiar. Este último, fundamental para uma base sólida ao desenvolvimento intelectual, moral e espiritual dos jovens.”
HAMILTON PEREIRA
Deputado Estadual eleito
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
Aids: Adolescentes ainda têm dúvidas
Questionados sobre qual a melhor forma de se evitar a contaminação pelo vírus da Aids, 64,6% dos adolescentes souberam apontar a opção correta dente as três opções apresentadas.
Um terço desinformado
Do total de adolescentes, 34,4% mostraram-se mal informados sobre o assunto. Isto equivale a dizer que um em cada três adolescentes ainda não detém o conhecimento básico sobre as formas preventivas. Um índice alarmante junto ao segmento com maior exposição no presente e no futuro próximo.

Comentários*
“É necessário ampliar com urgência os programas e ações voltadas à prevenção do HIV e também das outras doenças sexualmente transmissíveis, objetivando melhorar o nível de informação e a sensibilização para o problema, assegurando ao jovem a possibilidade de exercer sua sexualidade com segurança.”
ROSANA MARIA PAIVA DOS ANJOS
Diretora Técnica do Grupo de Vigilância Epidemiológica – ERSA 59
“OS resultados apontam a urgência de Projetos de Educação Sexual através da ação tripartite da escola/família/comunidade, focalizando a sexualidade numa perspectiva bio-psicossocial. Aprender através do diálogo é sempre melhor do que através do medo e, com relação à sexualidade, tenho observado que as famílias e os jovens acreditam mais na ação da escola do que ela, em si mesma.”
SONIA CHÉBEL MERCADO SPARTI
Professora da PUC-SP e UNISO
“Nós, técnicos das mais diversas áreas, temos a incumbência de promover, junto com a sociedade, ações de caráter urgente, para que se garanta a estas novas gerações um desenvolvimento digno e a construção de uma concepção de cidadania mais adequada.
A reformulação do espaço escolar através do resgate da sua essência, via a ‘Promoção de Desenvolvimento’. Faz-se necessário a reestruturação dos serviços de saúde, passando a considerar as necessidades deste grupo adequando seus serviços pré-natal, ginecologia, anticoncepção, aconselhamento e apoio emocional com garantia de acesso a informação.”
“Há que se estabelecer políticas sociais que estabeleçam como prioridade o cuidado com a criança e o adolescente entendendo ser este segmento social, nobre, e que é este segmento o único capaz de garantir o desenvolvimento futuro de uma sociedade mais igualitária, mais solidária, sem iniquidades e, sobretudo, ética.”JOSÉ RICARDO PIO MARTINS
Coordenação da Comissão Municipal de Prevenção à AIDS
“Pretendemos montar um ambulatório no posto sobre adolescência, ampliando o trabalho para os pais e professores serem orientados e atendidos nas suas dúvidas pessoais e educacionais.”
ANA LAURA SCHLIEMANN DE LUCA
Professora da Faculdade de Medicina de Sorocaba
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
24% não se protegem
A utilização de métodos anticoncepcionais, pelos adolescentes com atividade sexual é preocupante. Um em cada quatro jovens (24%) não utiliza nenhum método.

Comentários*
[Em trabalho multidisciplinar em desenvolvimento na Faculdade de Medicina da PUC-SP] “tenho percebido que existem ainda muitos mitos sobre sexualidade, menstruação, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis que fazem parte da vida do adolescente e que atrapalha, a questão que é a saúde geral do adolescente.”
“Essa fase do desenvolvimento – onde o jovem se sente ‘rei’ – serve para encobrir o grande medo que ele tem de viver e assumir responsabilidades. Fazer de conta que não é com ele fica mais fácil e dói menos. A Aids mudou um pouco esse panorama. É difícil um rapaz que não desfile com uma camisinha no bolso, mas a impossibilidade de falar sobre o assunto de forma ampla e verdadeira atrapalha uma utilização em maior escala e de forma correta da mesma.”ANA LAURA SCHLIEMANN DE LUCA
Professora da Faculdade de Medicina de Sorocaba
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.


