Juventude em Risco: Interesses, conhecimentos e aspirações
Os jovens de 1995 se interessavam mais por esportes, 1 em cada 10 estava fora da escola, consideravam a qualidade de ensino apenas regular, conheciam pouco sobre o ECA e não eram esperançosos quanto ao futuro.
Temas de Interesse: o Esporte interessa, mas não é tudo
O Esporte é o tema que desperta maior interesse entre os adolescentes. Esse dado revela a possibilidade do esporte ancorar um calendário de eventos que, juntamente com os temas Aids, Computação, Educação Sexual e Orientação Vocacional, possam fornecer ao longo do ano oportunidades de interação da escola/instituições no segmento adolescentes.
Tomando-se por base as respostas dos adolescentes, é possível concluir, com conhecida segurança, que o adolescente está carente de informações sobre Aids e Educação Sexual, temas inerentes à faixa etária, uma vez que estão vivendo a puberdade.
A incidência de respostas dos temas Economia e Política sugerem que o adolescente sorocabano não possui o mesmo grau de politização dos jovens que residem nas capitais. É possível observar que o adolescente sorocabano volta-se mais a si mesmo, preocupado com temas que lhe dizem respeito em tempo atual e em parte com o seu futuro.

Comentários*
“O adolescente sorocabano pensa muito no seu futuro profissional, tanto que 31% deles já se definiram pela área da computação e outros 21,7% têm nas profissões o seu maior interesse.”
ALDO VANNUCCHI
Reitor da UNISO
“Praticar esportes é ter status elevado, é ser moderno e estar de bem com a vida. E a TV intensifica essa imagem e fortalece esse contexto.”
[O interesse pela Aids e Educação Sexual] “representam o constante mistério da vida e as consequentes descobertas pessoais do jovem.”
“Computação é a nova esperança de emprego e futuro garantidos, lugar anteriormente ocupado por outras profissões. A mídia influencia e abastece as escolhas com muito estímulo mantido pelas empresas do ramo.”
CARLOS CAMARGO COSTA
Delegado da Cultura de Sorocaba
“Seus interesses predominantes por Esportes, Aids, Computação e Educação Sexual estão relacionados com as necessidades básicas desta etapa: valorização do corpo, necessidade de autoafirmação (nos esportes e numa atividade ‘da época’ que dê independência econômica), relacionamento com o sexo oposto, num contexto biopsicossocial, afetado pelo perigo de uma doença que é caminho da morte.”
MARIA HELENA GROHMANN RODRIGUES DE PAULA
Professora da UNISO
[Sobre o interesse no tema Aids e Educação Sexual] “revela a confusão mental do nosso adolescente que ouve falar por toda parte de liberação sexual, assiste a filmes, vídeos, novelas, mas nada está claro em sua mente, e muitos deles atiram-se à aventura sequiosos. Um trabalho sério de Educação Sexual, com bases científicas e éticas se faz urgente por instituições e escolas”
VIRGINIA ELIZABETH FERRARESE PELIZER FRANCO PINTO
Delegada da 1ª Delegacia de Ensino de Sorocaba
“A questão da Aids é das mais relevantes, pois exige uma intervenção imediata das autoridades escolares, por exemplo: o ‘modelo’ palestra já demonstrou sua ineficácia. A SEMEAR tem um excelente projeto (CACO) que pode ser uma das alternativas possíveis.”
ANTONIO CARLOS BRAMANTE
Secretário da Educação e da Cultura
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
Evasão: 10,5% estão fora da escola
Um em cada dez adolescentes não está matriculado em uma escola. Isto equivale aos 10,5% dos adolescentes entrevistados que afirmaram que no ano de 1994 não estiveram matriculados em nenhuma escola de 1º ou 2º graus, em Sorocaba ou outra cidade.
Com base no percentual de adolescentes que estão fora da escola, 10,5%, é possível formularmos duas hipóteses prováveis:
- É possível que parte desses adolescentes nunca frequentaram uma escola
- É possível que parte desses adolescentes já frequentaram uma escola e deixaram de estudar.
Do total de adolescentes, 89,5% estão matriculados em alguma escola de 1º ou 2º graus. Os dados se aplicam apenas à matrícula, ou seja, é admissível que uma parcela dos alunos matriculados possa ter deixado de frequentar as aulas, de acordo com as estatísticas da interrupção dos estudos (abandono no meio do ano).

Comentários*
“O abandono da escola também pode influir na expectativa do adolescente em relação ao seu futuro. Já vivendo num contexto de adversidade financeira, seja no meio familiar ou mesmo em termos de crise econômica do País – o que era nossa realidade até há pouco tempo, o jovem tende a ficar ainda mais pessimista quanto ao futuro, quando tem de interromper seus estudos, com menor possibilidade de vislumbrar dias melhores para si próprio e para seus familiares.”
RENATO AMARY
Deputado Estadual eleito
“Há necessidade urgente de reformulação dos conteúdos programáticos, baseada no interesse do aluno. A Escola deve ser um agente catalisador de cultura e conhecimento. A taxa de evasão é muito alta e o caminho desses jovens, longe da Escola, é o crime e a marginalidade.”
CARLOS CAMARGO COSTA
Delegado da Cultura de Sorocaba
“Evasão escolar na faixa de 10,5%, somando os evadidos e os já escolarizados, significa pequena porcentagem, como a do Estado de São Paulo, na faixa de 36,7% (dados do IBGE), mas também ela merece uma tentativa de solução: acompanhamento psicopedagógico dos escolarizados por orientadores previamente treinados, para que os primeiros não se transformem em evasíveis e evadidos.”
MARIA HELENA GROHMANN RODRIGUES DE PAULA
Professora da UNISO
“Há uma grande evasão na ‘saída’ da oitava série, por inúmeros fatores, o principal deles por exigência de ordem econômica e pela inadequação ‘produto-escola’ com as necessidades dos consumidores.”
ANTONIO CARLOS BRAMANTE
Secretário da Educação e da Cultura
“Quanto à evasão escolar, sabemos que é um fato, muitos adolescentes deixam a Escola quando começam a trabalhar, pois não conseguem administrar o tempo, outros a deixam por dificuldades financeiras, outros porque, introjetados em si e dominados pela nossa tradicional cultura de submeter-se e não dialogar, quando não conseguem resolver os problemas escolares, optam pelo caminho da fuga que, embora cômoda no momento e representando a liberdade e o abandono do sacrifício, irá prejudicá-los mais tarde, pela falta de preparo para o emprego e para a vida.”
VIRGINIA ELIZABETH FERRARESE PELIZER FRANCO PINTO
Delegada da 1ª Delegacia de Ensino de Sorocaba
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
Jovem quer ensino melhor
Os adolescentes foram questionados sobre como a formação que recebem na escola os têm preparado para a vida adulta. Ao avaliar a formação que estão recebendo, apenas 42,7% dos jovens se mostraram satisfeitos. A maioria não fez uma avaliação satisfatória da formação recebida, com uma grande incidência da resposta “regular” e uma preocupante incidência da resposta “ruim”.
Jovens descontentes
Os números revelam que os jovens estão descontentes com a sua formação e mostram-se exigentes quanto ao assunto. A partir dos resultados apresentados, é possível reavaliar os números da evasão escolar sob uma perspectiva de involução, uma vez que se a escola não lhes é do agrado fica mais difícil mantê-los (os adolescentes) estudando ou levá-los a estudar.

Comentários*
“A evasão escolar ocorre, além das causas sociais, devido à falta de interesse do aluno por aquilo que lhe ensinam” E o professor, mal remunerado e sem incentivos pouco se preocupa em agilizar conteúdos atraentes. E a Escola, o grande agente educador, torna-se um mecanismo obsoleto e cada vez mais destituída da função social e promotora de mudanças comportamentais.”
CARLOS CAMARGO COSTA
Delegado da Cultura de Sorocaba
“A formação do adolescente, avaliada por eles mesmos, situa-se também na lógica do contexto educacional paulista, mais para o regular (47,8%) do que para o bom (42,7%) devido a múltiplas causas inter-recorrentes: descaso governamental para com a educação (apesar de algumas excelentes exceções), falta de capacitação teórica/prática dos futuros professores, aumento da jornada de trabalho do professor, além das falhas nos recursos materiais e técnicos da educação.”
MARIA HELENA GROHMANN RODRIGUES DE PAULA
Professora da UNISO
“Certas coisas que a Escola ensina não correspondem à vida moderna e suas exigências; outras dessas coisas, embora úteis, o aluno não percebe a sua utilidade, não consegue fazer a ponte entre a teoria e a prática.
É muito importante que os professores sejam ajudados. O professor precisa de reciclagem urgente, reciclagem com ética e respeito à sua pessoa, ao profissional que é, que não tem culpa de não estar vivendo em um mundo para o qual não foi preparado. Tem dado muitos resultados as Horas de Trabalho Pedagógico (HTPs) das Escolas-Padrão, dos CEFAMS da rede estadual, onde o professor, com seus pares constrói um conhecimento que o leve ao acerto que busca.”
VIRGINIA ELIZABETH FERRARESE PELIZER FRANCO PINTO,
Delegada da 1ª Delegacia de Ensino de Sorocaba
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
45,6% só conhecem o ECA pela televisão
Questionados sobre o conhecimento do nome Estatuto da Criança e do Adolescente, os adolescentes, em sua maioria, demonstram alto grau de recordação do nome, uma vez que apenas 16,2% afirmaram que nunca ouviram fala do ECA.
Analisando o meio de comunicação que o adolescente apontou como sendo aquele que o informou sobre o estatuto, apenas 23,4% apontaram o professor. Estes resultados sugerem que foi essa a parcela que de fato manteve contato com o conteúdo do estatuto.
Entre os adolescentes que afirmaram já ter ouvido falar no ECA, 45,6% apontaram a televisão como o local onde obtiveram a informação. Com base nesses números, fica evidente que o estatuto tem alto grau de recordação devido ao seu nome singular, uma vez que no meio televisão, os veículos costumam fazer a menção ao ECA com uma frequência muito baixa, insuficiente para atingir níveis de recordação adequados e, muito menos, os níveis de recordação que a pesquisa revelou.

Comentários*
“Para mim o dado de que a grande maioria já ouviu falar do ECA significa muito pouco.”
ALDO VANNUCCHI
Reitor da UNISO
“Geralmente quem necessita da proteção do ECA são adolescentes marginalizados, menores de rua ou moradores de instituições, ou seja, jovens que não têm acesso à informação regular ou dependem de agentes que nem sempre informam adequadamente. A divulgação maciça do ECA é um dos caminhos para a grande mudança que há de vir.”
CARLOS CAMARGO COSTA
Delegado da Cultura de Sorocaba
“A SEMEAR tem feito um grande esforço para difundir o ECA e os dados da pesquisa são gratificantes.”
“A meu ver, os resultados ensejam duas medidas: (a) confirmar, com mais esforço ainda, esse trabalho de conscientização da comunidade sobre o ECA e (b) identificar a procedência desses 16,2% para um trabalho de difusão do ECA específico. Fica evidente a força da televisão quando se deseja transmitir alguma mensagem aos jovens.”
ANTONIO CARLOS BRAMANTE
Secretário da Educação e da Cultura
“É compreensível que 45,6% tenham tomado conhecimento do ECA pela televisão, devido ao grande poder de penetração deste veículo de comunicação sociais e 23,4% através dos professores. Estes dados devem ser entendidos como pistas para ‘solucionática’ dos problemas da adolescência: 1) Utilização da TV (e outras formas de comunicação) como meio de penetração das mensagens. 2) Capacitação dos professores como agentes multiplicadores de mensagens educativas.”
MARIA HELENA GROHMANN RODRIGUES DE PAULA
Professora da UNISO
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.
Jovens com pouca esperança
Ao avaliar o seu futuro daqui a quatro anos, apenas 15,2% dos adolescentes revelarem que olham com muita esperança. Alguma esperança é o que demonstram 49,8% dos adolescentes ao avaliarem o futuro: acreditam que será “melhor” do que o tempo atual.
Para o adolescente, o tempo de quatro anos transporta para a vida adulta ou, para a parcela mais jovem, para o limite com a vida adulta. A avaliação do jovem sobre esse futuro carrega em si as suas esperanças, seus planos de vida, coincidindo, para uma parcela, como o início da vida profissional.
O pessimismo
Um em cada três adolescentes não espera uma vida melhor. 10,8% acreditam que suas vidas serão iguais, sem nenhuma melhora. 24,1% não possuem a esperança de um futuro melhor: Esperam da vida adulta uma vida mais difícil.

Comentários*
“O otimismo maior de 15,2% somados ao otimismo menor de 49,8% dos adolescentes, perfazendo um total de 65% é o sintoma significativo do idealismo característico da adolescência, que necessita fazer de si mesma uma unidade harmoniosa de seus mais variados aspectos (raciais, sociais, políticos, econômicos, estéticos, religiosos e morais); tarefa difícil e complexa, que poucos realizam perfeita e completamente, mas que permanece como ‘futuro idealizado’, possível de ser atingido.”
MARIA HELENA GROHMANN RODRIGUES DE PAULA
Professora da UNISO
“Sentimos que isto traduz a insegurança em que vive a sociedade atual. Os pais estão inseguros quanto ao emprego, à segurança, à aposentadoria, ao serviço médico, educação e outros, e isto está sendo passado aos filhos daí o porque de 34,9% estarem inseguros. Os demais demonstraram estar em situação financeira mais estável ou então alheios ao processo econômico ou não vivem nas casas dos pais.”
FLORIPES GOMES CARDOSO CURTO
Presidente do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente de Sorocaba
“É preciso fazer alguma (ou muita!) coisa para os 24,1% que olham com pessimismo o próprio futuro.”
ALDO VANNUCCHI
Reitor da UNISO
“Com os altos índices evasão escolar, desemprego, instabilidade social e econômica, desajustes familiares, o jovem de hoje não tem realmente esperanças de um futuro melhor. Poucos terminam o segundo grau, uma parcela mínima entra em faculdades do governo e outra parcela mínima consegue pagar as mensalidades em uma universidade particular. Como ser otimista diante desta realidade?”
CARLOS CAMARGO COSTA
Delegado da Cultura de Sorocaba
*Autoridades e cargos respectivos a dezembro de 1994, data dos depoimentos.


